Há um charme discreto em Plano que é difícil de definir. Talvez seja a sensação de que o ambiente é habitado sem estar desgastado, ou a impressão de que o Chef Vítor Adão cozinha com os pés bem assentes em solo português, sem deixar de dar asas à imaginação. Seja qual for o motivo, o local revelou-se perfeito para um jantar Howard's Folly, organizado pelos produtores de vinho David Baverstock e Luís Lérias , que trouxeram uma seleção de vinhos em perfeita sintonia com a cozinha.
A noite começou com o discreto “Pão, azeite e azeitonas” do Plano — um pequeno lembrete de que a simplicidade, quando bem executada, pode ser um luxo em si mesma. O Sonhador Rosé 2020 abriu a noite com a sua habitual leveza: vibrante, delicadamente aromático e discretamente persuasivo.
O chef Vítor apresentou o primeiro prato, um tártaro de peixe fresco com leite de tigre e amendoins , uma combinação que conseguiu ser refrescante e reconfortante ao mesmo tempo. O Alvarinho 2024 complementou o cítrico e a salinidade sem sobrepor a delicadeza do peixe, numa harmonização que mais parecia uma conversa do que uma performance.
O prato de peixe — bacalhau com batatas esmagadas, molho beurre blanc e ovas — foi uma recordação de como a cozinha portuguesa pode ser gratificante quando preparada com esmero. Sabores familiares, equilibrados e apreciados sem pressas. O Reserva Branco 2020 acrescentou um pouco de amplitude e textura, com o seu carvalho suave e estrutura a conferir ao prato uma elegância discreta.
De seguida, veio a carne: contrafilé Barrosã maturado a seco com batata Kennebec e couve-flor , um prato que transmitia honestidade e autenticidade. O David e o Luís serviram dois vinhos tintos lado a lado, e foi nesse momento que a mesa se aproximou um pouco mais.
O Reserva Tinto 2019 foi o primeiro a destacar-se — encorpado, generoso, com frutos escuros e uma sensação de calor que se harmonizou com a riqueza da uva Barrosã. É um vinho que não se precipita, carregando o seu peso com uma serena segurança.
Em contraste, o Cristina 2019 pareceu-nos mais leve — fresco, com várias camadas, discretamente complexo. Enquanto o Reserva se inclina para a profundidade, o Cristina inclina-se para as nuances: frutos vermelhos mais intensos, um pouco mais de vivacidade, uma sensação de movimento no palato. Degustá-los em conjunto não gerou debate, mas sim uma apreciação de como dois vinhos da mesma região podem seguir caminhos tão diferentes.
A sobremesa — Pão de Ló com queijo Serra da Estrela — era suave, reconfortante e com um toque de nostalgia. O Carcavelos 1995 completou a refeição com a sua doçura delicada e maturidade suave, o tipo de vinho que convida a prolongar a refeição.
No final da noite, o ambiente tinha-se instalado naquele ritmo tranquilo que os bons jantares costumam criar. As conversas fluíam, os copos eram reabastecidos, e David e Luís circulavam entre as mesas com a generosidade despreocupada de pessoas que realmente apreciam partilhar o que preparam. Nada de ostentação, nada forçado — apenas uma noite de cozinha cuidada, vinhos expressivos e pessoas que estavam felizes por estarem exatamente ali.

